
welcome to the graveyard

safe in the rain.
i'm not okay, but i'm not insane.
3 de abril nunca teve gosto de aniversário.Tinha gosto de metal na boca, de bebida ruim parada no fundo do copo, de ar preso no peito por horas demais. Vincent aprendeu cedo que algumas datas não vinham para ser celebradas, vinham para lembrar.
E seu aniversário sempre servia ao mesmo propósito cruel: lembrar-lhe de que continuava vivo dentro da mesma história, respirando sob o mesmo teto, cercado pelos mesmos homens que haviam transformado sua casa no primeiro lugar do mundo que lhe ensinou a ter medo.A luz da sala estava baixa, em um tom quente, espalhando sombras pelos cantos como se a própria casa soubesse se encolher quando a noite caía. Vincent permanecia sentado no sofá, uma perna aberta, a cabeça tombada para trás, o copo solto entre os dedos. O álcool já não fazia o bastante, há tempos não fazia. Servia apenas para embotar as bordas, nunca o centro. E o centro doía intacto. Como sempre, estava no mesmo dia, no mesmo horário, com as mesmas pessoas que odiava.Quando ouviu a chave girar na fechadura, não se moveu.
Aquele som, por si só, já bastava para repuxar algo antigo em sua espinha. O corpo reconhecia antes da mente. Sempre reconheceu. Como um animal que aprende a escutar o predador mesmo quando tudo parece em silêncio. A porta se abriu, e com ela entrou primeiro Nicholas, trazendo nos ombros a mesma presença apagada de sempre — pequena, hesitante, quase desculpada por existir. Ele fechou a porta atrás de si com cuidado demais, como quem tentava não incomodar a própria tragédia.Vincent olhou para ele por um segundo.
although with the way i act, it might seem that way.
Nicholas tinha aquele tipo de rosto que a culpa envelhece antes do tempo. As rugas não vinham da idade, a pele era esticada, os olhos tinham suas marcas de quem sorri o tempo todo; uma farsa fazendo seu teatro. Nicholas tinha marcas de anos inteiros escolhendo o silêncio, porque o silêncio ainda lhe permitia dormir em uma cama quente, comer em uma mesa posta, continuar pertencendo àquela casa sem se tornar o próximo a sangrar. Talvez dissesse a si mesmo que fazia o que podia. Talvez até acreditasse nisso. Os homens gostam de sobreviver chamando a própria omissão de impotência.Atrás dele entrou Thomás.E então a casa ficou menor e estupidamente sufocante.Era sempre assim. O espaço encolhia ao redor dele, como se o ar aprendesse a se comprimir para que coubesse melhor sua autoridade. Thomás não precisava gritar, nem bater, nem sequer encarar alguém por muito tempo.
No modo exato como parava em pé, na lentidão com que tirava os sapatos, na frieza meticulosa do olhar, que nunca parecia realmente ver o filho, apenas medi-lo, avaliá-lo, decidir quanto dele ainda precisava ser corrigido, podado, quebrado.
Havia homens que carregavam a violência nos punhos; ele a carregava na postura, naquele jeito meticuloso e repulsivo de quem veste decência em público, mas revela a verdadeira face assim que as portas se fecham.
Vincent conhecia aquele olhar mais do que conhecia o próprio reflexo.Conhecia-o desde pequeno, desde antes de entender palavras grandes como disciplina, respeito, homem. Antes mesmo de aprender que amor, quando vem das mãos erradas, pode assumir a forma de ameaça. Thomás nunca precisou dizer com todas as letras que odiava qualquer traço de desvio no filho, porque sempre encontrou maneiras mais eficazes de ensinar isso, fosse no peso da mão, na rigidez das ordens ou naquela raiva quase moral com que tratava tudo o que, em Vincent, se recusava a se dobrar, como se o menino, depois o adolescente, depois o homem, tivesse crescido errado simplesmente por insistir em ser algo além daquilo que lhe era permitido.Por um momento, ninguém falou.

it's complicated, the way that my brain's.
Só havia aquele silêncio grotesco entre os três, um silêncio que não era ausência de som mas excesso de tudo que jamais fora dito direito. Nicholas tirou a carteira do bolso, colocou-a sobre o móvel de entrada e evitou olhar demais para Vincent. Thomás lançou os olhos pela sala até encontrá-lo afundado no sofá, copo na mão, o semblante cansado demais para parecer desafiador. Ainda assim, Vincent sabia que, para homens como ele, sua mera existência já soava como afronta.— Bebendo sozinho no próprio aniversário? — Thomás perguntou, por fim.
A voz veio baixa e controlada. Quase limpa. Vincent sentia um misto de raiva e nojo em cada timbre que saía da boca daquele homem.O mais novo soltou uma risada breve pelo nariz, sem humor algum. Havia algo de podre naquilo, na pretensão de normalidade. Como se fosse uma casa qualquer, como se fossem uma família qualquer, que estão fazendo uma visita casual, como se 3 de abril pudesse um dia ter sido apenas um filho envelhecendo um ano, e não mais um marco grotesco de fracasso.Ele girou o copo entre os dedos, observando o resto do líquido bater nas laterais de vidro.Quando era mais novo, acreditava que um dia deixaria de reagir à presença do pai. Que o tempo criaria algum tipo de imunidade, os anos engrossariam sua pele por dentro ou qualquer outra coisa que podia se apegar a se livrar dos adotivos. Não aconteceu. O que veio não foi cura, mas adaptação. Seu corpo aprendeu a parecer calmo enquanto apodrecia em alerta, aprendeu a manter a voz firme enquanto uma parte antiga, enterrada e infantil, ainda se encolhia ao menor sinal de mudança no tom de Thomás. Certos medos não desaparecem, só trocam de roupa.
Nicholas continuava ali, ao lado, com as mãos vazias e a boca inútil.Vincent o odiava às vezes com uma violência mais triste do que a dirigida a Thomás. Porque do monstro se espera monstruosidade, mas de um pai ainda se espera, estupidamente, que em algum momento ele se interponha entre o golpe e o filho. Nicholas nunca se interpôs. Nunca foi escudo, nunca foi abrigo, nunca foi sequer testemunha digna. Assistiu a tudo com os olhos de quem vê a própria casa pegar fogo e, em vez de buscar água, fecha as janelas para que os vizinhos não percebam a fumaça.Talvez tivesse medo. Provavelmente tinha. Mas Vincent já não conseguia respeitar o medo quando ele escolhia sempre o mesmo lado.— Parabéns, filho. — Nicholas murmurou, finalmente, sem força, quase como se a frase lhe arranhasse a garganta.Vincent ergueu os olhos para ele.Filho.A palavra soou obscena.Havia algo de ofensivo em ainda reivindicá-lo assim, depois de tantos anos permitindo que ele fosse criado mais pelo medo do que pelo afeto. Filhos não nascem apenas do sangue, nascem também daquilo que recebem quando choram, quando erram, quando tremem, quando precisam. Nicholas lhe dera silêncio. Thomás, medo. Entre um e outro, Vincent crescera como se fosse preciso arrancar de si qualquer delicadeza para continuar inteiro.Ou quase inteiro.
Thomás deu alguns passos pela sala, sem pressa, como se inspecionasse o ambiente. Vincent acompanhou o movimento com os olhos, sem mover o resto do corpo. Conhecia aquela cadência, conhecia os sinais, a falsa calma, o julgamento sendo construído em silêncio, a bronca ainda não dita já pesando no ar como agulhas no lugar de chuva. Thomás era perigoso também nisso: ele não explodia sem aviso; ele fazia o outro assistir à própria condenação se aproximar.— Você está com uma aparência de merda — disse, simples.Vincent sorriu de canto.Aquilo, curiosamente, quase o aliviava. Havia conforto na previsibilidade da crueldade, ela ao menos não mentia, não fingia amor, não vestia laços. Era o que era.— E você continua com o mesmo rosto de sempre. — respondeu, a voz baixa no mesmo nível, embora carregasse o mesmo rancor de anos na boca. — Então acho que nenhum de nós saiu ganhando.O silêncio que se seguiu foi cortante.Nicholas prendeu a respiração. Vincent percebeu sem precisar olhar. Era quase fascinante como o medo se movia dentro daquele homem antes mesmo de qualquer conflito começar, como se ele estivesse perpetuamente ajoelhado por dentro. Thomás, por sua vez, apenas o encarou.Na infância, Vincent teria se arrependido na mesma hora.Na adolescência, teria se preparado para apanhar.Agora, aos trinta e dois, fazia outra coisa: sustentava o olhar de volta. Não porque fosse invulnerável, não era. O corpo lembrava. A carne lembrava. Alguma parte funda de si continuava sabendo exatamente o que aquelas mãos eram capazes de fazer, mas havia chegado a um ponto em que o medo já não o dobrava do mesmo jeito; talvez porque tivesse apanhado demais da vida para ainda se impressionar, talvez porque estivesse cansado demais para recuar, talvez porque, no fundo, uma parte sua tivesse passado anos esperando o momento em que finalmente deixaria de ser menino diante dele.
Ainda não era liberdade.Mas era alguma coisa.— Hoje é meu aniversário. — Vincent disse, por fim, a voz saindo baixa demais para parecer sentimental, alta o bastante para não soar fraca. — Então faz um favor a mim e a você mesmo.Se endireitou devagar no sofá, pousando o copo vazio sobre a mesa de centro. — Não estraga o resto da noite.Thomás não respondeu de imediato. Seus olhos permaneceram sobre o filho por alguns segundos longos, calculistas, frios e Vincent conhecia bem aquele tipo de silêncio. Conhecia porque passara a vida inteira sendo estudado como um erro que insistia em continuar respirando.Nicholas ao fundo, continuava imóvel.E talvez fosse isso o mais humilhante. Não o medo. Não a ameaça. Não a memória do que podia acontecer, mas o fato de que, mesmo naquele dia, mesmo vendo o filho sentado diante deles com o rosto duro e a alma em frangalhos, Nicholas ainda escolhia fazer o que fizera a vida inteira: a porra do nada.Vincent desviou os olhos primeiro, cansado de toda aquela merda. Queria apenas sumir. Sumir do mapa, pra bem longe, onde nem mesmo o pai iria conseguir lhe alcançar, carregava tanto cansaço que o deixava fraco, e Vincent nunca foi de fraquejar. Cansaço verdadeiro, desses que apodrecem por dentro. Pegou a garrafa novamente e serviu mais um dedo de bebida, os pensamentos circulando de que alguns homens recebem festas de aniversário.Outros, recebem apenas a presença dos fantasmas que os criaram.